Repare e entenderás rapidamente como funciona as engrenagens mentais de uma mulher como eu. Segura, determinada, idealista. Acordo todos os dias com a cara amassada e cabelo pro alto, como todo mísero mortal. Remela no olho esquerdo, unha saindo esmalte, quebrada. Atrasada, com preguiça, deleito-me dos pecados capitais um a um. Sem pressa, aproveitando cada segundo que me resta. Os holofotes giram em minha direção, saio pela tangente. Perguntam minha opinião, estou sempre de boca cheia. Doutores aos meus pés, falta-me segurança, sobram-me perguntas, restam-me fatos. De mim tenho certeza 5,12% , ciumenta, lenta, esfomeada. Mais o que?
Quisera eu que não tivesse passado, com rosto e sobrenome. Ros-tos, sobreno-mes. Evito, evito pensar, no beijo que não foi o meu, nas palavras doces jogadas ao vento, na dedicação, compreensão e cumplicidade que se deu. Eu sei, amarguraria e definharia em raiva de um passado que não é meu, que não vivi. Perderia a glória de desembrulhar o presente e o futuro que ainda se desdobrará.
Mas olha, olha só, o sorriso que paira sobre a tela branca, pintura minuciosamente desenhada e que amanheceu teus dias. Riso esse que te encantou, te comoveu, te fez mover céus e terras, afogou-te em loucura. Admira, por um momento, e entenderás. Simples e belo olhar que dilacera meu peito. Evito lembrar! Meu peito em chamas é resultado da combustão da minha mente fértil, alimentada por uma foto miserável, prova da existência de uma felicidade que não foi minha.
Escrevo como um espírito aprisionado.
A tendência, eu sei, é piorar...
Ei de parar por aqui, talvez seja melhor.
Depois não entendem quando calo-me por raiva ou amargura.
Minha boca, jardim de lindas e doces palavras, torna-se azeda, eu sei.
Calarei.

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